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sábado, 20 de dezembro de 2008

Troquei os pés pelas mãos... / por O.Heinze

...e me pus a passear
“plantando bananeira”
tendo de chão o ar
e de céu: flores rasteiras

indo feliz nessa situação
enquanto na contra mão
todo mundo achava que não

e mergulhado assim de cabeça
numa realização atemporal
meu eu criança brincava:
sou um super herói
empurrando no espaço o mundo;

meu eu adolescente viajava:
sou um revolucionário divertido
o mais livre vagabundo;

meu eu adulto se orgulhava:
minha loucura não foi em vão
tenho o mundo na palma da mão;

meu eu extraterreno sonhava:
preciso empurrar o mundo
daqui da maldade do mundo
para vida de amor profundo.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Palhaço Pinóquio / por O.Heinze

Ha! Ha! Ha! Que piada!
Rio de mim mesmo.
Na praia sou torresmo
com cor de goiabada.

Chamar a atenção é good!
Meu ego quase derrete.
Cansei de puxar charrete
de ser chamado de grude.

Quem dá as cartas sou eu.
Agora dou preferência.
Nem tenho mais carência
pois mando no que é meu.

Ha! Ha! Ha! Que vida boa!
Quê? Que nariz vermelho?
Ora, vá se olhar no espelho!
Tua inveja ri atoa.

Desarticulei de tudo.
Vou viver de ar.
Montem o bilhar
achem o jogo de ludo.

Uhu! Estou tão contente.
Viva a liberdade!
Esqueci minha idade.
Solidão sai da frente!
Loja de sonhos / por O.Heinze

Roubei num tempo distante
uma faixa de praia e de mar
e guardei numa concha grande
de onde escuto o cantar

encantador: das sereias
libertador: das gaivotas
namorador: das baleias
das ondas: contra ilhotas.

E enquanto a maré vai fluindo
na praia de minhas lembranças
sinto um calor me cobrindo
da brisa salgada que dança.

Revejo um pesqueiro moroso
empurrado pela calma do acaso
num mar bem preguiçoso
de azuis aonde vou raso...

Reparo na praia tão cheia
crianças brincando, vendedores cantando
assobios e risos na areia
e minha fantasia namorando...

Eis que voltando para a realidade
essa fantasia continua fantasia
meia mentira, meia verdade
guardada nessa concha vazia...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Abracem-me / por O.Heinze

Isso! Abracem-me...
Podem todas me abraçar
brandamente enlacem
meu corpo a se doar

Porque o abraçar é tudo
que há de encantador
num momento longo, mudo
na energia do amor...

Isso! Abracem-me...
ondas mornas do mar
ah se vocês falassem
porque vem me abraçar...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Borboletas e prostitutas / por O.Heinze

Vivem soltas no parque
borboletas e prostitutas
no eterno embarque
diário de suas labutas...


Vestem-se parecidas
com cores vibrantes
fazendo-se queridas
pelos seus amantes...


Sempre perfumadas
alegres pela vida
borboletas na florada
prostitutas na avenida...


Ambas são caçadas
por seres solitários
homens nas calçadas
e meninos visionários...

Borboletas e prostitutas
consolam os tristonhos
umas vendendo frutas
outras compondo sonhos...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Adeus amiga... / por O.Heinze

Tínhamos mais ou menos a mesma idade
quando viestes morar no meu bairro.
Éramos crianças e você por ser menina
já era mais alta, esguia e atraente.
Todos os dias te via de frente de casa,
pois era onde te fixastes por uns 40 anos...

Crescestes, floristes, virastes uma rainha
com teus mais de dez metros de altura
e copa abundante onde pássaros faziam ninhos
e insetos cantavam e dançavam entusiasmados
enquanto fartavam-se de pólen nas flores amarelas.

No outono, tuas minúsculas folhas lançadas por ti
pareciam confetes comemorando a vida em festa
e tua vida era tanta que tuas bases agigantaram
rompendo a calçada, o meio-fio e o muro forte,
obrigando tua retirada em tempo breve.

Foi estranho ver homens com máquinas potentes
cortarem teus anti-braços, braços e pontas dos pés
e depois te arrancarem de teu lar antigo,
não sei se para a morte ou terras distantes...

É difícil olhar e não te achar mais onde moravas,
só encontrar uma rua e um céu cheios de vazio.
É triste ter perdido tua preciosa companhia,
ver no teu lugar um remendo de calçada...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O Perfumador de Flores / por O.Heinze

Eis minha vida
que ninguém conhece;
minha eterna lida
suave parecendo prece...

Não tenho nome;
nem tenho cor;
não passo fome;
vivo de flor...

Sou um designado:
o Perfumador de Flores;
vou nos jardins, vasos,
buquês de amores...

Porém, camélias,
dálias e margaridas,
preferem ser sérias,
um tanto contidas...

Transfiro, sendo assim,
o perfume que delas era,
para a rosa e o jasmim
fazerem primavera...

Ao sentires fragrância
numa flor ou no ar,
saiba que minha ânsia
vive por perfumar...

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Na banca de jornal / por O.Heinze

Olhando por toda banca
não me encontro em nada
nem na capa da revista santa
nem nas mais conceituadas
nem nas fofoqueiras ou pornôs
nem nas manchetes dos jornais
nem nos gibis internacionais
já dos tempos de meu avô.

Compro então uns dez pacotes
com três figurinhas em cada
encontrando reis do pagode
do funk etc. E eu? Nada!

Não me encontro na banca
nem dentro, nem na calçada
e uma pergunta tão franca
me faço na alma cansada:

Se a ilusão domina a tudo
onde a razão será usada?
Talvez na voz do mudo
na vida não enxergada...

domingo, 31 de agosto de 2008

Astronauta do chão / por O.Heinze

O caminho acabou
o lago começou
e eu que nem percebi
continuei em frente
andando sobre as águas
como se fosse chão
ou ponte de tábuas...

Se pareço astronauta
pelos parques da Terra
é culpa de meu amor
que desconhece gravidade
no espaço da felicidade...

Quem me assistiu assim
achou ser milagre
alguém tão comum
com poder nenhum
ser leve igual ar
apenas por amar...
Vaso da janela / por O.Heinze

No peitoril da janela
continua o mesmo vaso
dando linda e amarela
flor para o acaso.

Queria ser esse vaso
importante da janela
mas sou só poeta raso
não tendo flor singela.

Pois que guardo tanto amor
neste eu, vaso humano
e na rua passa a flor
nem sabendo quanto à amo...
Lábios verdes / por O.Heinze

Ela tinha os lábios verdes
não por batom ou frio
mas naturalmente verdes
verdes de esperança
verdes como botão de flor.

Certo dia seu desejo realizou:
o verde
ruborizou, a flor abriu
um perfume virgem fugiu
o beija-flor fartou-se de néctar
e ela passou dançando
de um sonho para outro...

domingo, 3 de agosto de 2008

Borboleta xadrez / por O.Heinze

Avistei certa vez
uma borboleta xadrez
subindo e descendo no ar
igual bandeira a voar
feliz como na vitória
com toda pompa e glória.

Ainda se bem me lembro
eu jogava em setembro
uma partida de xadrez
e foi isso que ela fez:

pousou no meu tabuleiro
como se fosse num jasmineiro
achando mesmo muito crível
ser aquilo sua flor compatível
e abrindo um sorriso brilhante
beijou e beijou a flor gigante...