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sábado, 19 de julho de 2008

Eis a felicidade / por O.Heinze

Não é feriado nem domingo
e por esse asfalto cobalto
vou feliz feito um flamingo.
Sinto-me do chão andando alto
mais alto que o salto-alto
da nobre madame que vem vindo;
mais alto que um som contralto
de violino que vou ouvindo;
mais alto que o puro arauto
que enxerga um anjo lindo;
mais alto que o patinador
que rola, rala e sai sorrindo;
mais alto que o mergulhador
que vê o peixe-lua luzindo;
mais que o menino voador,
bicicleta e ET subindo...

sexta-feira, 11 de julho de 2008

FOME... OME... Ome... ome... / por O.Heinze

Temos fome por tudo:
nós, os outros;
etérea, material;
masoquista, salutar;
doce ou de sal;
por dentro, fora;
sentimentos lá atrás
e agora.

Loucamente
matamos por ela
e damos vida;
damos a vida;
danamos a vida
para tentar saciar
essa eterna ferida...

Fome: prisão!
Fazendo pesados
e esqueléticos;
lesados e atléticos.
Fazendo-nos animais;
pecadores normais;
pecadores capitais...

Sem ela seríamos anjos,
mesmo que sem asas.
Anjos negros, brancos,
vermelhos, pardos,
amarelos, invisíveis,
mas seríamos anjos,
anjos críveis...

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Cisne negro / por O.Heinze

Em não podendo mais morar
nesta vestimenta humana
desejaria habitar no corpo
de um flutuante cisne negro,
para viver do silêncio
no lago tranqüilo espelhado;
na pacífica montanha adormecida;
no desprendido céu observador;
na mansuetude das aragens
vindas sopradas do norte,
tocando uma sinfonia morna,
inaudível para estes exteriores,
mas que faz valsar às almas
das tabuas, das águas na superfície,
e esta minha, agora mais branca
que a brancura da ternura,
inspirando-me, talvez, jamais acordar
de volta para a razão humana...

sábado, 14 de junho de 2008

Oitenta segundos... Uma eternidade... / por O.Heinze

No céu um sinaleiro
pairando igual colibri
amarelo... Vermelho!
Fazendo-me parar ali.

E no chão asfaltado
na faixa de pedestres
passando hipnotizados
lunáticos e terrestres...

Eu dentro do meu carro
flutuando no tempo
com meus olhos agarro
tudo que contemplo...

Medito ou sonho?
Tudo está tão bom...
E a paz que componho
é quebrada num fom!

O semáforo abrira
o colibri verdejou
o mundo me pedira
para voltar, então vou...

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Ressurreição / por O.Heinze

As flores estampadas
neste jornal antigo
já estão desidratadas
pelo tempo de castigo.

Nem sei em pastel
qual cor mais triste
o cinza no céu
ou já no jornal
o amarelo que existe.

Eis que a chuva cresce.
Cubro-me com o jornal
que, penso, agradece
em absorver o temporal.

Quando acho um abrigo
e chacoalho o jornal
quem creria nisso???
Do jornal escorrido
caíram flores com viço...

sábado, 24 de maio de 2008

Eu: máquina do tempo / por O.Heinze

Hoje eu senti uma saudade
tão grande de mim
e sem perda de tempo
saí a me procurar...

E onde encontrar
alguém feito eu
que vivo a vagar
por tantos momentos?...

Me reencontrei no passado
nas mais diversas lembranças...
Me achei no futuro
em ilusões, fantasias, sonhos...

Mas aqui e agora
mal consigo me deter
e assim continuo solitário
pela falta de mim no presente...
Universo inverso / por O.Heinze

Fico imaginando se acaso
o universo cansado de viver
resolvesse desistir de si
e fosse se desfazendo...

Primeiramente apagando
o céu por detrás do sol,
depois apagando o sol
por detrás do mar
e aí o mar, as gaivotas,
o chão, o ar e o tempo;
deixando no vazio somente eu...

Então, havendo mais nada fora,
eu buscaria dentro de mim
no meu universo,
aquilo que possuísse por lá
para viver...

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O circo / por O.heinze

No centro da cidade,
na rua bulevar,
tem tanta gente,
tantas caras, disfarces,
tipos e modismo,
coisas e esquisitices,
acessórios e bugigangas,
que cheguei a dar risadas!
Eu lá naquele meio
desviando, esgueirando,
um verdadeiro malabarismo
para chegar aonde eu queria.
Só então me dei conta;
aquilo tudo é um circo!
Sim... Ele ainda existe!
Não tem mais a lona,
mastros e carroças.
Tudo está ao ar livre,
todos os integrantes;
mestre-de-cerimônias,
ilusionistas, pombas,
“leões”, mulher-barbada,
anão, gigante,
pipoqueiros, “cavalos” etc.
E eu também estava lá;
o palhaço!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Louco? Ora! / por O.Heinze

Enquanto todos corriam de ti
eu te recebia de braços abertos.
Nem sabiam quais eram mais vazias:
minhas lágrimas a descoberto
ou tuas carícias frias.

Depois que fostes embora
todos os seres voltaram
para me olharem com demora
pois só eu te recebia. Só eu!
Agora me acham louco? Ora!...

Sempre estarei aqui, sempre...
De coração aberto esperando por ti
oh chuva bendita que surpreende
lavando-me mais a alma que eu aqui
e brotando em mim outras sementes...

sábado, 3 de maio de 2008

Com o dia ainda nascendo... / por O.Heinze

Penduro frutas diversas
pelas árvores do quintal
e encantadoramente
atraio a passarada
de todos os recantos
da cidade silenciosa
com o dia ainda nascendo...

Vivo desses pássaros
sem donos nem destinos;
de seus primeiros cantos
entoados no novo dia;
vivo das suas asas livres
onde meus olhos voam...

Mas principalmente vivo
do que nem é mais só deles
pois agora é também de mim:
a alegria de cantar
sem saber ao certo porque;
cantar talvez por ter despertado
também na minha alma...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A praça / por O.Heinze

Passei hoje
pela “nossa“ praça
onde namorávamos
à 21 anos atrás...

Ela mudou tanto
na aparência...
Os bancos são outros;
as pedras nas calçadas;
os jardins...

Mas as árvores
e a energia na atmosfera...
Ah... essas são as mesmas
e sorriram para mim
me reconhecendo...

Talvez não por fora
mas por dentro
onde minha idade
e meu amor
em nada mudaram...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Céu e margaridas / por O.Heinze

À minha frente o céu azulado
e um mar de margaridas
e também atrás, dos lados...

Nem sei o que seria maior:
o céu ou o campo florido
que se perdem no horizonte?...

Para tentar sentir
deito-me entre as flores
e o céu fica infinito sobre mim
e as margaridas em toda volta
do tamanho da primavera...

Então descubro que o maior
dentre o campo de flores
e o céu azulado
é o espírito da poesia...