Translate

quinta-feira, 16 de maio de 2013





















Saudade dos cantares / por O.Heinze

Saudade do mar doce
e o cantar das brancas ondas;
do céu de ar salgado
e o cantar das tantas aves;
da paz nas grandes pedras
e o cantar e frescor do vento;
do abraçar puro do sol
e o cantar dos coqueirais.

Saudade da bela praia
e o cantar da livre moça;
do barco perto e lento
e o cantar do pescador;
da areia morna e fofa
e o cantar do coração;
do tempo sem ter pressa
e o cantar da alma aberta.

Saudade vai saudade
buscar a felicidade.
Mas onde de verdade?
Tudo isso é só vontade.
A praia transformou,
não tem mais àquela idade,
e os cantos, quem cantou,
vivem só nessa saudade.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

Na melhor solidão



















Osvaldo Heinze




Na melhor solidão / por O.Heinze

Acabei de roubar
deste canto da serra
flores de manacá
Ah... e quem não erra?
Mas as nuvens brancas
não me denunciarão,
pois carregam tanta paz;
nem os pássaros no chão,
pois felizes cantam mais;
nem a brisa, que, então,
silencia aos matagais;
nem o sol e o céu que são
velhos amigos leais.
Roubei só por paixão,
por amá-las demais.
Flores do meu coração,
puras irmãs fraternais,
na vida, na morte,
na alegria, na tristeza.
Tenho tanta sorte
por achar essas belezas...
Mas pensando no existir
não posso assim roubar
essas flores a me sorrir.
Devo a vida restaurar...
Toma querida planta
cole tuas flores de volta
perdoe minha paixão tanta
adeus, meu sonho te solta...
e de volta na lida
nos meus extensos varais
de roupas coloridas
bem longe dos mananciais,
me conforto nos prendedores
dependurados nos arames,
parecendo lindas flores;
insetos em enxames;
casulos de borboletas;
frutos das alegrias;
pássaros de ponta-cabeça;
células de fantasias...

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Renascer








Fotografia de O.Heinze












Renascer / por O.Heinze

Chores tuas más águas
para poderes renasceres
o sol dentro de ti.
Pois que o passado
é revista velha, relida
e o presente na lida
é o que tens de real.
Os sonhos também o são
desde que te entres neles
mas para tanto é preciso
fazeres amizade com o futuro.
Chores tuas más águas
faças uma cascata delas
e depois um calmo rio
onde navegarás teu inteiro
ser doce, puro, verdadeiro
enquanto rasgas revistas
fotos, bilhetes, cartas
e todas essas histórias fartas
relembradas no teu livro vida.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Carinho / por O.Heinze

Carinho!
Sabe carinho?
Não precisa nem ser
um monte de beijos
ou uma montanha de abraços,
apenas um gesto.
Carinho!
Gato gosta,
cachorro,
passarinho,
hamster,
gente gosta.
Gente gosta!?
Gosta mesmo?
Carinho!
Alimento maior,
doação gratuita,
que custa tanto distribuir.
Somos gente ou máquinas?
Sinto-me envergonhado ao dar
e receber carinho.
Me de um empurrão.
quem sabe eu consiga
ofertar desse afeto,
que vale mais que tudo.
Me de um puxão.
Quem sabe eu permita
receber desse afeto,
que vale mais que tudo...
antes que seja tarde
e para sempre covardes
sejamos robôs frios e mudos.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

E por falar em existir...






















E por falar em existir... / por O.Heinze

Se eu não existisse
não haveria mundo
pois sem mim, o mundo
se chamaria ausência
e sem mim, o universo
se chamaria saudade.
E ausência e saudade
seriam uma coisa só
chamada carência
e nada seria igual
do que se mostra hoje.
As flores não seriam todas
as datas não fariam bodas
a poesia quase que viria
o amor não seria pleno
a história não faria sentido
o Todo não seria inteiro.
Sequer viveríamos nós
nessas mesmas letras.
Igualmente tua presença
é imprescindível
para haver eternidade.
Há quem se diga ninguém
e até parece mesmo ser isso
perante a existencialidade.
Mas tire um de nós dela
e não haveria mais mundo
pois sem você, o mundo
se chamaria ausência
e sem você, o universo
se chamaria saudade.
E ausência e saudade
seriam uma coisa só...

sábado, 13 de abril de 2013

Com a pulga atrás da orelha / por O.Heinze

Sabe seu moço...
eu não tenho sequer sessenta,
mas lembro bem, muito bem,
das manadas, nuvens,
dos cardumes, bandos...
Era tanto bicho livre,
que dava gosto olhar o mundo.

Neste mísero meio século,
danamos com quase tudo.
Essa nossa raça humana
dita tão assim “racional”,
cresceu mais que erva daninha,
consumindo tudo a sua frente.
Do reino animal ”irracional”
o que restou é figurativo.
Triste homenagem besta
usar da sua imagem
para palavreado popular
dando nome as coisas:
tartarugas separando vias;
borboletas enfeitando pescoços;
macacos erguendo veículos;
zebras marcando asfaltos;
piranhas prendendo cabelos;
papagaios nos hospitais;
galos nas cabeças;
percevejos nos papeis;
cavalos nos motores;
mouses nos computadores;
onças nas pesagens;
cucos nos relógios;
pulgas atrás das orelhas;
araras nas roupas, enfim...
Ou só parte deles:
pé-de-cabra;
olho-de-gato;
rabo-de-tatu;
pata-de-vaca;
olho-de-peixe;
unha-de-gato
dente-de-leão...
Um dia, possivelmente,
nós humanos insaciáveis,
faremos parte dessa lista.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Jardim de sol / por O.Heinze

Borboleta no chão
asas já desfazendo
é hora da partida.
Para onde voarás agora
depois de ter passeado
por toda minha poesia?
Haverá lugar além
desta atmosfera de amor
com igual ou maior vida?
Desejo que sim!
Que possas renovar tuas cores
em flores a perder de vista.
Que tua liberdade
seja ainda mais leve
e a tua doçura de alma
a própria eternidade.
Mas se te sentires só
voltes para meus sonhos
naquele sempre jardim de sol.



Foto de O.Heinze

sexta-feira, 29 de março de 2013

Louco varrido










O.Heinze 










Louco varrido / por O.Heinze

Olho-me no espelho
minha imagem invertida
rio até ficar vermelho
triste vida divertida.

Sinto-me rico por abrir
um sabonete barato.
Rio apenas por rir
neste circo/mundo ingrato.

Então já que é normal
aceitar às avessas
vou achar que bem é mal
o amor nem se mereça
a vida da vida esqueça.

Vesti os pés com sapatos
ambos do lado esquerdo
e saí andando em curva
no lugar, pensando... pensando...

Bons tempos àqueles lá longe
onde era comum se viver pelado
pois como incomoda usar
a roupa do lado errado.

Como é difícil ser louco
vivendo de um jeito forçado

afinal, para o mundo, louco é louco
e o mundo todo para o louco
é infinitamente tão pouco!

sexta-feira, 22 de março de 2013

Faz de conta










 guardiões do céu / foto e quadro de O.Heinze










Faz de conta / por O.Heinze

Já pensou 
se pudéssemos 
alugar um cavalo
branco e alado
por um dia?
Subir até as nuvens
recheadas de paz
e lá comprar 
um ingresso especial
para atravessar 
um portal de luz?
E ao atravessá-lo
descobrir que ali
não existe tempo
nem volta
nem lembranças
nem cavalo alado?
Que cavalo alado???



sexta-feira, 15 de março de 2013

Amigos para sempre








 Foto e arte em marcenaria de O.Heinze








Amigos para sempre / por O.Heinze

Estava aqui lembrando
de alguns amigos meus:

o engraçado marionete
surgindo detrás das cortinas
todo desengonçado e magrela;
o joão-bobo, cheio de nada,
que eu vivia empurrando fora,
mas ele voltava e voltava;
a fantoche que me animava,
falando tudo que eu queria,
gostando de tudo que eu falava;
o fiel e destemido cavalo de pau
me levando a todos os lugares;
havia ainda o amigo invisível,
ouvindo minhas lamentações
enquanto eu chorava nos meus castigos;
a amiga bola de meia
que volta e meia corríamos juntos;
o judas reaparecendo na rua
todos os sábados de aleluia,
que apesar de bem comportado
era sentenciado a pauladas e fogo;
o coringa que do nada
surgia no meio do meu jogo
trazendo no sorriso toda sorte.
Em comum todos eles continham
um recheio de não carne
e por isso provavelmente
se me tornaram amigos para sempre...


sexta-feira, 8 de março de 2013

História sem cor / por O.Heinze

Tenho visto aos bandos
seres que não gostam de cores
conversando em branco e preto
caminhando em preto e branco
cantando em branco e preto
sorrindo em preto e branco.

Até mesmo os palhaços atuais
fazem graças em branco e preto.
Crianças brincam em preto e branco.
Velhos olham em branco e preto.
Cachorros uivam em preto e branco.
Aves presas cantam em cinza.

Cadê o que dá o colorido???

Pois até nós os loucos
antes tão cheios de cores, agora,
enlouquecemos em branco e preto
blasfemamos em preto e branco
depois dançamos em branco e preto
e terminamos chorando sem cor.

Fico a me perguntar:
As pontas dos lápis de cores
não se deixam mais apontar?
As caixolas deram pau
e não sabem mais pintar?

Os arco-íris estão à solta
é preciso sentir o céu!
Ser feliz é gratuito
façamos chãos de flores!

Cada qual é o criador
da sua história de cor!...

sexta-feira, 1 de março de 2013

Onde / por O.Heinze

Diga-me para onde vão
os beijos interrompidos
os olhares desviados
os bilhetes de amor rasgados
as borboletas sem flores
e as flores que não vingaram
os perdões que mal perdoaram
as poesias depois de lidas
as já curadas feridas
os corações partidos
os amores perdidos
as balas perdidas achadas
as pequenas e grandes mentiras
e as tantas lágrimas contidas...
Diga-me para onde vai
o que não é bom nem mau
o silêncio do funeral
o breve sorriso doce
o “seria bom se fosse”
o desencontro no encontro
o aceno não enxergado
o suor que não foi suado
àquele dia pulado
a dor de um aborto
o espaço do natimorto
a vontade do vento
o aleatório pensamento
e o esquecimento?...