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sábado, 29 de setembro de 2012

Corruíra / por O.Heinze

Desde muitos e muitos anos
há a permanência discreta
de um pequeno e singelo pássaro
no quintal ou jardins de casa:
escondido na pilha de telhas;
no amontoado das madeiras;
por entre as gramas e arbustos;
ou até mesmo sobre o telhado.
Tenho a impressão que é sempre o mesmo
e que crescemos juntos nesta vida.
Sei que seria fantasiar demasiadamente
achar que ele ainda vive após meio século,
mas seu canto parece inconfundível

assim como também seu modo de ser.
Acho que por não saber voar longe
ou não ter encontrado uma parceira,

mantêm sua morada por aqui,
recusa-se a morrer nesta existência.
Ou talvez a solidão seja sua vida,
pois não quer seguir este meu martírio
de morrer e morrer tantas vezes por amor...

Diversos cantos de um pássaro corruíra no quintal de casa ao amanhecer.


sábado, 22 de setembro de 2012

Confidência / por O.Heinze



foto de O.Heinze

Agora entendo porque as flores não falam,
não sorriem, não choram...
Porque eu faço isso tudo por elas e para elas
através das letras e também do meu eu.
Mas ouvirem, ah... Ouvem-me muito bem, pois,
quando converso com elas florem ainda mais viçosas
e se comunicam perfumando todo ar que respiro.
Nesse momento somos eu delas e elas de mim,
pois suas almas viajam em meu ser e meus sonhos viajam dentro delas.
Parece então, que quase sinto Deus me reparando no meio
desse universo que nem Ele talvez queira saber até aonde vai.
Mas chegam sempre os instantes em que as flores deitam e dormem,
dormem para sempre com meus sonhos
e eu acordo para a realidade das sementes.
Sinto que Deus está escondido dentro delas,
Ele gosta de brincar de esconde-esconde, bem o sei,
e nem me atrevo a orar para fazê-lo aparecer,
prefiro fingir que não sei que Ele está ali.
Sabe... Deus também é criança
e poderia não querer ser achado.
Quando as sementes crescerem e derem flores
Deus sairá feliz de dentro delas gritando contente
que eu não o consegui saber,
então voltarei abençoado para estar com todas elas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Manacá-da-serra



foto de O.Heinze

Manacá-da-serra / por O.Heinze

Quereria ser terra
para tê-la enterrada em mim
oh árvore mais bela
por hora de um jardim.

Dia virá ainda
que serás também do céu
de um azul que não finda
um todo eu em véu.




sábado, 1 de setembro de 2012

Magia da lua azul / por O.Heinze

Em média
a cada dois anos e sete meses
a lua azul aparece
e na minha floreira cresce
um perfume forte de flores
que soergue-se nos ares
e em foco com a lua
forma-se a imagem tua
encantando meus olhares...
Tamanha magia assim
ninguém acreditaria
então guardo-te para mim
num diálogo que eternizaria...
Mas a lua caminha no céu
desfazendo-te na manhã
largando-me no afã
de um misto de mel e fel...

sábado, 25 de agosto de 2012

Flor da Areia - letra e música de O.Heinze


Tão somente por nada
















Fotografia de O.Heinze


Tão somente por nada / por O.Heinze

Enquanto crianças e jovens
saltitam pela vida iguais sementes
fugidas da explosão de vagens,
velhos varrem as folhas das calçadas.
Nós das outras idades por nossa vez
buscamos algo que ainda não sabemos,
talvez a fonte da juventude;
a terra dos prazeres sem fim;
ou ainda mais que isso, o paraíso!?
Por outro lado os cães felizes
se contentam em comer e latir;
os gatos em comer e miar;
as plantas em comer e florir;
o sol em queimar e brilhar;
a lua por ter quatro roupas;
o mar por ter duas marés;
o barco por ter um casco;
a tartaruga por ter casa própria;
o colibri de uma asa por andar
e poder beijar flores do chão;
o passarinho cuco por ter relógio;
e eu por seguir na mesma toada,
rindo da minha risada.

domingo, 19 de agosto de 2012



Antes dos limões / por O.Heinze

Ontem fui conversar
com as flores do limoeiro,
talvez, pois, me sentia tão solteiro.
As flores me confortaram
e seus perfumes me falaram,
de que a vida faz adoçar,
basta experimentar.

foto de O.Heinze

sábado, 18 de agosto de 2012

Contando felicidade / por O.Heinze

Num dia muito amarelo
deitei sob a sombra das lembranças
e comecei a contar nos dedos
quantas vezes havia sido feliz.
E contei tanta felicidade
que perdi até as contas...
Relembrei a primeira vez
que equilibrei na bicicleta;
fui para a escola desacompanhado;
ganhei a medalha de campeão;
troquei o primeiro beijo (não técnico);
me apaixonei perdidamente;
uni mundos com outrem;
recebi cada filho meu nascido...
Pois é... Toda primeira vez é única
e de uma felicidade inigualável...

sábado, 11 de agosto de 2012

Brinquedos

 
foto por O.Heinze - 08/2012.


Brinquedos / por O.Heinze

Acho que você me foi
o melhor presente na vida,
o que causou maior surpresa.
Fui lhe desembrulhando com calma,
pois para mim cada segundo com você
era tudo o que eu mais queria.
Sentia que você igualmente
gostava muito de ser de mim
e tudo entre nos nós foi sendo
a melhor brincadeira do mundo.
Mas o lúdico também envelhece
e nossas risadas foram rareando.
Chegaram os dias em que parecíamos
aqueles brinquedos esquecidos no sótão,
de repente lembrados com saudosa alegria,
se ainda existiriam guardados e empoeirados.
E realmente estávamos lá esperando
para sermos sacudidos e limpados do desuso
na tentativa de reaver os risos de outrora.
Mas parecia que nada, absolutamente nada,
energizava a velhice nos brinquedos.

sábado, 4 de agosto de 2012

Tintas mortas







 fotografia de O.Heinze













Tintas mortas / por O.Heinze

Certo dia meu corpo carnal morrerá
e de mim aqui sobrará apenas tintas:
nas letras que formei poesia;
nas cores que pintei minhas artes;
nas fotografias em que aparecerei;
nas sensações que minhas músicas provocarão;
no sangue que doei vida afora;
no luto que talvez farei sentir.
Mas tudo isso também passará,
virará pó, menos que pó, nada!
Então me chamarão de: “quem foi esse?”.
E quando eu for esse jaz esquecido,
farei parte da real importância:
ser parte da composição silenciosa do mundo,
sem, contudo, levar mérito de nada.