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sábado, 27 de outubro de 2012

Indigência





fotografia de O.Heinze











Indigência / por O.Heinze

Quase morta, indigente,
mais caroço que bagaço,
já fostes fruta carnuda:
beleza aos sóis de verões;
pele perfumando primaveras;
nudez abraçando invernos;
flor livre ou enclausurada
ao balanço de sonhos e brisas.
Tal qual árvore frutífera,
fizestes vidas renascerem,
pois tuas raízes fortemente
sugavam a vontade de seguir.
Antes de serdes gigantesca,
fostes tão somente um brotar,
duas folhas a se limpar
do solo que rompestes.
E a semente que tu eras,
agora jaz somente terras,
as mesmas em que te deitas
sonhando em ter colheitas,

enquanto morres mais e mais
para renascer de ti semente.


sábado, 20 de outubro de 2012

Flor cristal












Fotografia de O.Heinze




Flor cristal / por O.Heinze

Não me incomodo
se uma flor
é branca ou preta;
pequena ou grande;
perfumada ou inodora;
breve ou duradoura;
da mata ou cultivada;
rara ou comum.
Mas que seja verdadeira
não só na aparência de fora,
mas na transparência de dentro.
Pois então ela perpetuará
mesmo depois do florir
e ainda além do despetalar.
Na alma igual às lembranças;
na semente igual a descendentes.
E o tempo será testemunha
de que o universo aqui floriu.

sábado, 13 de outubro de 2012

Dia nublado














fotografia: O.Heinze


Dia nublado / por O.Heinze

Essa chuva que chora
aparentemente sem motivo
sabe que não foi embora
esta solidão que eu vivo.

Solidão sem lágrimas não faz sentido.
Meus olhos são o temporal incontido.

Por que a chuva insiste
em ser mais cinza do que eu
tornando mais e mais triste
este morto coração meu?

Vá aguar por outro canto mais feliz
onde haja vida, sonhos, flores de lis.

Quando esta tormenta for
meu coração abrirá em sol
minha alma fará calor
toda vida será bemol.

Acharei um trevo de uma só folha, sozinha.
Um coração verde, novo, pura vida minha.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012


                              Às vezes vou ao shopping só para ver se encontro algumas gaivotas.
Coringa / por O.Heinze

Não quis sair pela porta
e decidi pular a janela.
Minha casa estava tão morta
precisava fugir dela.

E igual um hábil ladrão;
ou mágico papai-noel;
ser de outra dimensão;
morador das zonas do céu,

passei pro lado de fora
e como se noutro país
sem humildade e demora
empinei meu rubro nariz.

E no show a céu aberto
que tudo faz acontecer
vesti roupa de esperto
e nunca mais me fiz morrer.

sábado, 29 de setembro de 2012

Corruíra / por O.Heinze

Desde muitos e muitos anos
há a permanência discreta
de um pequeno e singelo pássaro
no quintal ou jardins de casa:
escondido na pilha de telhas;
no amontoado das madeiras;
por entre as gramas e arbustos;
ou até mesmo sobre o telhado.
Tenho a impressão que é sempre o mesmo
e que crescemos juntos nesta vida.
Sei que seria fantasiar demasiadamente
achar que ele ainda vive após meio século,
mas seu canto parece inconfundível

assim como também seu modo de ser.
Acho que por não saber voar longe
ou não ter encontrado uma parceira,

mantêm sua morada por aqui,
recusa-se a morrer nesta existência.
Ou talvez a solidão seja sua vida,
pois não quer seguir este meu martírio
de morrer e morrer tantas vezes por amor...

Diversos cantos de um pássaro corruíra no quintal de casa ao amanhecer.


sábado, 22 de setembro de 2012

Confidência / por O.Heinze



foto de O.Heinze

Agora entendo porque as flores não falam,
não sorriem, não choram...
Porque eu faço isso tudo por elas e para elas
através das letras e também do meu eu.
Mas ouvirem, ah... Ouvem-me muito bem, pois,
quando converso com elas florem ainda mais viçosas
e se comunicam perfumando todo ar que respiro.
Nesse momento somos eu delas e elas de mim,
pois suas almas viajam em meu ser e meus sonhos viajam dentro delas.
Parece então, que quase sinto Deus me reparando no meio
desse universo que nem Ele talvez queira saber até aonde vai.
Mas chegam sempre os instantes em que as flores deitam e dormem,
dormem para sempre com meus sonhos
e eu acordo para a realidade das sementes.
Sinto que Deus está escondido dentro delas,
Ele gosta de brincar de esconde-esconde, bem o sei,
e nem me atrevo a orar para fazê-lo aparecer,
prefiro fingir que não sei que Ele está ali.
Sabe... Deus também é criança
e poderia não querer ser achado.
Quando as sementes crescerem e derem flores
Deus sairá feliz de dentro delas gritando contente
que eu não o consegui saber,
então voltarei abençoado para estar com todas elas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Manacá-da-serra



foto de O.Heinze

Manacá-da-serra / por O.Heinze

Quereria ser terra
para tê-la enterrada em mim
oh árvore mais bela
por hora de um jardim.

Dia virá ainda
que serás também do céu
de um azul que não finda
um todo eu em véu.




sábado, 1 de setembro de 2012

Magia da lua azul / por O.Heinze

Em média
a cada dois anos e sete meses
a lua azul aparece
e na minha floreira cresce
um perfume forte de flores
que soergue-se nos ares
e em foco com a lua
forma-se a imagem tua
encantando meus olhares...
Tamanha magia assim
ninguém acreditaria
então guardo-te para mim
num diálogo que eternizaria...
Mas a lua caminha no céu
desfazendo-te na manhã
largando-me no afã
de um misto de mel e fel...